quarta-feira, 22 de maio de 2013

Livro - O Xangô de Baker Street, autor: Jô Soares

             O Xangô de Baker Street livro escrito por José Eugênio Soares (Jô Soares). É um romance histórico que se passa no Brasil Império. As personagens da trama são a elite brasileira, dentre estas estão alguns personagens reais como Dom Pedro II, Chiquinha Gonzaga e Olavo Bilac. Dentre as personagens que realmente existiam estão Sarah Bernhard, uma atriz francesa que vem ao Brasil se apresentar no teatro, e ela realmente veio se apresentar no Brasil algumas vezes e Jack o Estripador.  Existem mais dois personagens famosos, mas fictícios: Sherlock Holmes e seu inseparável companheiro Doutor Watson.

           Um raro violino Stradivarius, dado pelo imperador a uma amante dele foi roubado, e como fora uma presente dado secretamente o caso não poderia ser denunciado a polícia, o imperador então, aconselhado por Sarah Bernhardt uma atriz francesa que se apresentava no Brasil decide convidar o famoso detetive inglês Sherlock Holmes, para solucionar o caso. Nos dias seguintes, dois assassinatos violentos ocorrem chocando toda a sociedade, e Holmes assim que chega é convidado também a ajudar nas investigações sobre os assassinatos. Eis a trama, um psicopata que mata mulheres lindas, Holmes a procura do assassino e do ladrão do violino. Além de Sherlock Holmes e Watson (que são os personagens fictícios da história) outros nomes conhecidos e reais fazem parte da trama. Como Olavo Bilac,  Chiquinha Gonzaga. Sarah Bernhardt também foi uma pessoa real, e esteve algumas vezes no Brasil se apresentando em teatro.

Sherlock é o protagonista da história, porém o Holmes apresentado por Soares é bem diferente do original, é na verdade uma caricatura, um personagem cômico. Com certeza chocará os fãs do detetive. Ora seu talento maior o de dedução é mostrado aqui como várias sequências de enganos, tudo que o detetive deduz está errado, mesmo acertando conclusão final, mas o encadeamento de ideias que o faz chegar ao desfecho nunca está correto.  O autor apresenta isso de forma muito engraçada. Esta é na verdade é a proposta dele: escrever um livro cômico. Holmes em um dos momentos do livro surpreende, inclusive o inseparável dr. Watson, falando fluentemente português de Portugal. Ele aprendera com um cientista português enquanto estudava venenos em Macau na China.

Por outro lado o autor valorizou a inteligência da nossa elite, que em diversas situações fizeram deduções que Sherlock não fora capaz de fazer. Já adiantando o final do livro, sinto ter que fazer isso, mas é algo que não posso deixar de comentar, Holmes não consegue solucionar o caso dos assassinatos, e a explicação para isso é que as pistas deixadas propositalmente pelo criminoso, que era um intelectual, eram pistas que faziam menção a cultura romana, que maior influência na nossa cultura pela nossa origem portuguesa e a grande influência da cultura francesa, já Holmes era inglês e os anglo-saxões possuem um viés cultural distinto. Outra pista que Holmes não conseguiu fazer a inferência lógica, estava ligada ao português e o que ele falava era o português de Portugal e a palavra que interligaria os fatos é diferente nos dois países.

 Um ponto forte do livro é a representação do Brasil da época, o reinado de Dom Pedro II. O autor faz isso muito bem, relatando a cultura, os hábitos, as expressões, as formas de ver o Brasil e o mundo e a admiração exagerada pela França e tudo que era françês, o que para a percepção atual, tal atitude é abominável. Hoje por mais que a cultura americana esteja arraigada ou até sincretizada à nossa, não chegamos a idolatrar a cultura norte-americana, como era a nossa elite em relação a francesa na época do império. Talvez seja pelo nosso antiamericanismo tão questionado, inclusive li uma vez um comentário interessante de uma embaixatriz americana a este respeito, em suas palavras: "o antiamericanismo no Brasil tem um quilômetro de extensão e um centímetro de profundidade". Enfim por mais questionável que seja nosso antiamericanismo ele ao menos evita que admiremos essa cultura abertamente como já o fizemos em relação à francesa. 

Um bom livro,  muito prazeroso de ser lido. Acredito que dá uma noção muito próxima da identidade cultural da elite brasileira no período, assim como informações sobre a cidade do Rio de Janeiro e como o Brasil era percebido pelos estrangeiros e pela elite nacional. O autor se preocupou bastante em não cometer anacronismos. Realmente vale a pena ser lido.


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